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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Totem & Tabu - Exposição Coletiva no Palácio Ribamar










Falos poderosos, proibições e a estrutura primeva do Humano.


Já era este o primeiro olhar sobre o tema, resultado na nossa profícua cultura ocidental, aberta e livre que cresceu nos últimos 100 anos quase tanto como toda a nossa espécie nos últimos 100 mil.


O olhar de uma cultura que conhece ou acede com facilidade à sua história, geografia, ciência e que em apenas um século refundou todas as suas organizações, culturas e crenças num processo imparável de globalização e normalização.


Pelo menos assim gostamos de acreditar.


Há pouco mais de 100 anos, em 1913 Sigmund Freud fazia uma apreciável contribuição à antropologia social publicando a obra “Totem e tabu, alguns Pontos de Concordância Entre a Vida mental dos Selvagens e dos Neuróticos”, onde constrói uma teoria psicanalítica em torno da origem da civilização.


Nesta obra Freud aborda o mito da Horda Primeva e da morte às mãos dos seus filhos do Pai Totêmico do qual extrai algumas hipóteses sobre a origem das nossas instituições sociais, culturais, morais e religiosas.


Pegámos no título da obra de Freud e decidimos colocar a nós próprios a seguinte questão:


Serão os nossos símbolos contemporâneos mais poderosos e importantes ainda influenciados ou dominados por este mito primordial?


Segundo este autor, totem e tabu é uma tentativa de explicar questões da psicologia social, relacionando o totemismo aos vestígios da infância, que procura nessa reflexão compreender a transição da organização dos Clãs Totêmicos para a organização atual da Família, e depois em diferentes graus, em Etnias, Nações ou Empresas.


O livro escolhe como um dos principais exemplos ilustrativos as tribos primitivas da Austrália onde à chegada dos europeus regia o sistema do totemismo (não existiam instituições sociais ou religiosas) com as características comuns da proibição de matar o animal totêmico e da exogamia e consequente proibição do incesto, tabu fundamental para a preservação de toda a comunidade.


Serão os tabus primordiais as poderosas origens da ética humana?


Freud aqui retoma a sua teoria a respeito do Complexo de Édipo na qual afirma que a primeira escolha amorosa da criança é incestuosa e desenvolve um pouco sobre o papel destas fixações iniciais da libido na construção da vida mental inconsciente.


“As mais antigas e importantes proibições ligadas aos tabus são as duas leis básicas sobre o totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto. Estes devem ser, então, os mais antigos e poderosos dos desejos humanos”.


Antes de avançarmos, é importante entender que “Tabu” é um termo que possui em si dois sentidos contraditórios: por um lado significa “Sagrado”, mas por outro “Proibido” ou “Perigoso”.


É assim suposição geral que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta a um período anterior à existência de qualquer espécie de religião.


Na análise dos tabus dos povos primitivos, Freud constata ainda que estes não divergem de alguns costumes das nossas sociedades contemporâneas: restrições sobre o assassínio, restrições sobre a sexualidade, punições, atos de purificação, expiação e reconciliação, cerimónias, proteção dos líderes/ governantes, proteção em relação a estes, contato com os mortos e rituais funerários.


Define ainda três características principais para os tabus - o animismo (objetos inanimados são animados por espíritos, demónios ou alma); a magia (decorrente da necessidade de controle sobre o mundo, as suas forças e recursos através de rituais e atos obsessivos com caráter mágico); omnipotência dos pensamentos (crença nos desejos de forma desligada da realidade, narcisismo e indiferenciação entre ego e objeto) – e compara as diferentes conceptualizações do Homem em relação ao Universo com as fases do desenvolvimento libidinal: a animista correspondente com a Narcisista, a religiosa com a escolha do Objeto e a científica com a Maturidade (renuncia ao princípio do prazer e regresso ao primado da realidade/ mundo externo).


Como Autores também viajámos entre o princípio do prazer e o princípio da realidade?


Pintámos e navegámos nesta cartografia.


Em Totem e Tabu, com base no mito, é também afirmado que a religião totêmica teria surgido a partir do sentimento filial de culpa, “num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o Pai por uma obediência a ele que fora adiada” e teria como finalidade impedir a repetição do ato que causara a destruição do Pai real.


Este remorso e em simultâneo triunfo sobre o Pai está, segundo Freud, ainda persistente nas religiões – sacrifício do animal totêmico, comunhão no corpo de Cristo – e o a ideia de Deus estabelecida, pelo remorso/ admiração, num Pai Glorificado que também afetaria as organizações sociais estabelecendo o seu modelo nas Famílias tradicionais de base patriarcal.


Desejo, Morte, Culpa e a tentativa de reconstrução desta ordem instituída pelo Pai Primordial, através de um totem, fálico, grande e poderoso, em torno do qual poderíamos encontrar e reconstruir a nossa identidade.


As obras aqui expostas não são totens, nem sinaléticas ou alertas consagrados aos nossos tabus.


Antes são expressão deste interessante conflito interno que ao longo dos tempos, desde as nossas origens imemoráveis, tem sido motor e fogo intrínseco do nosso próprio processo de Humanização.


Nuno Quaresma


Fevereiro de 2015


Bibliografia


Totem and Taboo: https://en.wikipedia.org/wiki/Totem_and_Taboo, consultado a 30 de Janeiro de 2016


“Totem und Tabu: Einige Übereinstimmungen im Seelenleben der Wilden und der Neurotiker” Sigmund Freud,  Beacon Press,1913


 


CONVITE


O Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Paulo Vistas, e os Autores do Coletivo Aka Arte/ Num dia Perfeito, tem a honra de convidar V.Exa. para a inauguração da Exposição de Artes Plásticas, Totem & Tabu de Nuno Quaresma, Pedro Afonso, Simão Carneiro e Teresa Rebotim, a realizar no dia 3 de Março, pelas 18h00, na Galeria Municipal Palácio Ribamar, em Algés.


Durante o decorrer da Exposição irão realizar-se workshops de artes plásticas para público infantil. Informações em www.numdiaperfeito.com


A exposição estará patente ao público de 4 a 20 de Março de 2016, de quarta a domingo, das 14h às 18h. 


Galeria Municipal Palácio Ribamar | Palácio Ribamar, Alameda Hermano Patrone, Algés | Tel. 21 411 14 04


Para confirmar presença visitem:



Uma antologia feita no aqui e no agora




Uma Antologia feita no aqui e no agora.

Uma retrospectiva vivida para além de si própria, no momento, no presente.

Foi este o espírito da inauguração desta mostra de artes plásticas e da apresentação do livro “Sonha com Lucy” de Tania Estrada Morales, com ilustrações da minha autoria, realizadas num esforço concertado e suportado também pelo grupo Aka Arte/ num dia perfeito.

As primeiras palavras deste livro foram contadas na voz das crianças presentes, numa pequena leitura que marcou simbolicamente a apresentação desta narrativa que conta a história de uma menina turca, inteligente, sensível, curiosa e generosa, representativa de todas as crianças da nossa geração, chamando ainda a atenção para o nosso papel na sua educação, saúde, liberdade e identidade.

Antologia foi assim o espaço para falar do papel da arte no quotidiano e na contemporaneidade, nos percursos que cada autor pode empreender em áreas como a literatura, a pedagogia e até economia, tudo isto sublinhado pelo otimismo e empreendedorismo destas doces e jovens vozes que nos deliciaram ao dar vida à palavra escrita que ali se lançava.

Deixo aqui um sentido agradecimento ao Marias do Açúcar que nos acolheu entre os seus doces, talentos e carisma, que emprestou a esta noite de verão de S. Martinho a magia das experiências inesquecíveis.


Nuno Quaresma

Novembro de 2015













quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

“El diamante de una estrella
Ha rayado el hondo cielo,
Pájaro de luz que quiere
Escapar del universo
Y huye del enorme nido
Donde estaba prisionero
Sin saber que lleva atada
Una cadena en el cuello.”


“O diamante de uma estrela
Rasgou o céu profundo
Ave de luz que quer
Escapar do universo
E é executado fora do ninho enorme
Onde foi preso um
Sem saber que ele é amarrado
Uma cadeia de caracteres no pescoço”



1ª Estrofe de “El diamante” de Federico García Lorca




Nesta dissertação devo ter atravessado, ter sido colhido na corrente, mergulhado e nadado, no mais ancestral chauvinismo que ainda conservo da herança evolucionária dos meus mais ancestrais parentes australopitecos! Mas confesso que foi um trabalho onde sinto ter aprendido bastante. Não subscrevo todos os resultados, assumo contudo a qualidade e interesse do processo... adiante... sem mais demoras... Como vender Diamantes :)







Porque o Amor é Eterno…



Tecnologias de Representação Gráfica



~ Memória Descritiva ~



CAMPANHA VENDA DE DIAMANTES





O briefing/proposta inicial lançada nesta disciplina foi a de simular uma campanha criativa com recurso à construção de um conceito artístico, gráfico e ilustrativo consentâneo com o objetivo prático de aumentar as vendas de um produto, numa simulação à ligação do criativo com a realidade crua dos mercados e das suas práticas.


Em síntese, o desafio proposto foi o de responder criativamente à questão: como vender rapidamente, de forma sustentada e a um segmento mais alargado da população, um stock de 3 milhões de diamantes, número imaginário mas simbólico e significante em relação à pressão para os vender rapidamente, de forma inovadora e num paradigma de sustentabilidade.


Começámos, em turma, por abordar o tema numa lógica de experiência, senso comum e pré-conceito, de onde fomos derivando, aos poucos, para uma conceção mais estruturada sobre as emoções, construção semântica e simbólica assim como a história das imagens tradicionalmente associadas a este produto.


Foi desta forma, norteados por este processo, que chegámos, coletivamente, às seguintes conclusões:


O diamante vale pela sua raridade e pelo longo e extraordinário processo de onde resulta a sua constituição e prospeção.


Geralmente são adquiridos com a finalidade de passarem a constituir uma oferta, um presente, dirigidos quase impreterivelmente às mulheres (“Diamonds are a girls best friend…”)


Na generalidade são os homens que fazem esta aquisição e, apesar de não possuirmos dados estatísticos que o possam comprovar, consensualmente chegámos à conclusão que são quase apenas os homens os compradores, que o fazem segundo o processo descrito no ponto 2 e fundados nas qualidades distintivas e únicas mencionadas no ponto 1, que somados ao elevado preço deste produto, criam um contexto económico, social e humano muito específicos que merecem uma análise ponderada antes de qualquer intervenção criativa na sua apresentação.






Nesta linha, e depois de densamente exploradas as ordens de razões que levam um homem a comprar um produto com este valor para o oferecer a uma mulher, sobretudo em mais do que uma ocasião (como sugere o briefing inicial e sem esquecer o célebre slogan “Diamonds are forever…”, abraçámos enfim a hipótese (fundamentada mas ainda e porém uma hipótese), que as emoções a despertar para conseguir influenciar forte e positivamente o volume de vendas deste produto, seriam o Medo (da perda da pessoa amada ou da pessoa desejada) do Amor (pelo menos na sua vertente de cuidado pelo outro com fortes sinais de compromisso e de segurança) misturados com o ingrediente Culpa.


E qual o poderoso lugar do sentimento de Culpa nesta fórmula?


Convocar repetidamente o desejo pelo Amor Proibido é condição para a repetição da compra de um objeto que numa relação de legitimidade, entre pares, só se compra uma vez (um diamante = a um Amor). Esta é a constante…


Variáveis em que o resultado é sempre uma multiplicação na de compra de diamantes:


Na relação particular entre géneros - e vale a pena recordar que este trabalho se trata de um ensaio apenas hipotético construído de forma dialética e em grupo, sem preconceitos ou determinismos – a consumação do desejo é a fatal dentada na maçã que se paga em sentimento de Culpa.


Segundo esta teoria, quanto maior a desejabilidade da mulher, maior o risco de queda em desgraça (e em simultâneo, no doce pecado), e que quando esta condição se estabelece, o que se cristaliza é uma enorme ambivalência, capaz de transmutar um homem num comprador esporádico, mas regular na sua recursividade, de singulares diamantes.


Dito de outra forma, para segurar o Amor legítimo e a sua ancestralidade sentimental e segurança e em simultâneo poder disfrutar da liberdade, infinita nas suas possibilidades, de um Amor ilegítimo, este homem desmultiplicar-se-ia em aquisições de diamantes, cada vez mais caros e únicos, para manter o vínculo a ambos o Amores, selando cada novo envolvimento ou muda reconciliação com o valor mais alto da escala económico-romântica, o Quilate!






Esta foi enfim a fórmula paradigmática que estabeleceu o mote.


Tudo que a partir daqui se passou, curiosamente, falhou ostensivamente o alvo e no caso da minha proposta criativa em particular, foi parar a um lugar aparentemente próximo, mas muito aquém desta elegante luxúria e complexa elaboração.


É contudo a minha proposta mais sincera e mais conseguida dentro das experiências na procura do cumprimento deste briefing.






A opção para o Cartaz Final






Depois deste trabalho de reflexão reiterada em torno da hipótese que como turma postulámos, em relação aos “targets” da campanha, o que efetivamente se colou à minha memória sentida, a única a que realmente consegui aceder, pelo menos nas fases de esboço e artes finais, é o que passo a descrever.


Comecei por escolher as palavras-chave da comunicação que mais me sensibilizaram: sedução, liberdade, desejo (escolhi contudo o desprovido de culpa) e o compromisso.


Num processo que gradualmente deixou de ser guiado pelo racional, e passou a sujeitar-se à técnica escolhida – desenho com riscador segundo técnica de trama e aguada – fui vendo o conceito formalizar-se numa imagem de uma plasticidade puramente “gestaltiana” que no seu 1º estado resultou numa mulher, motard e independente, em frente à sua mota (com rodas vagamente evocativas da imagem de dois anéis) a observar atentamente um homem mais velho, ocupado numa escrita compenetrada entrecortada com a atenção a um telemóvel.


Depois de uma primeira apresentação em aula, em que percebi que a situação representada no desenho poderia funcionar mas com a ressalva das observações em relação à inadequação da idade da rapariga e ao mesmo tempo da pouca pertinência da presença de um elemento como o telemóvel, produzi então uma segunda proposta gráfica já com um conceito muito mais definido, com o slogan – “há coisas boas que duram para sempre…” - presença de logo marca (Papoul Diamond) e uma imagem de fundo com enfoque naquilo que me pareceu dar sinais de eficácia: a duplicidade da imagem da mota/ anéis e empatia e intemporalidade do que no desenho parecia ligar as duas personagens.


Neste formato sujeito à uma apresentação projetada e explicada diante da turma foi possível entender em diálogo com os presentes e em particular com o Professor, que o enfoque na duplicidade da imagem da mota era realmente um ponto positivo ao nível da eficácia, mas que a intemporalidade não estava bem consubstanciada, pelo que, juntado todo este retorno obtido nesta produtiva construção sistémica, que é o desenvolvimento conjunto com um grupo alargado, de um tema em particular, criei o formato final a apresentar.


O seu slogan e título passou a ser “Porque o Amor é Eterno…” e passou a enfatizar os seguintes elementos:


- O homem passou a ser tipificado com o perfil de um “George Clooney” num traje ambíguo, vagamente barroco, mas também moderno


- A mulher passou a ser tipificada segundo o perfil de uma “Gwyneth Paltrow” numa pose vagamente inspirada na musa típica Pré-Rafaelita, com uma aura do mesmo mistério e simbolismo


- A mota, de design facilmente volúvel em duas formas diferenciadas de alianças


- O Castelo como símbolo de intemporalidade, mas também de lugar/ abrigo seguro


- Dois cavalos a correr, lado a lado, a fazer lembrar ideias como a liberdade, sintonia, e cumplicidade (reforçada pela coreografia do galope)


- A presença, no canto inferior esquerdo, de um diamante com a forma de uma ponta em sílex, também conotada com a mestria no manuseio dos materiais, talento e engenho masculinos com competências adaptativas ancestralmente atraentes para uma mulher, com maior inclinação para a escolha de um companheiro com estas qualidades de protetor e progenitor


Deixei assim a minha escolha cimentar a sua força e eficácia em:


Na dita intemporalidade do Amor Romântico e no valor infinito (naturalmente cotado em diamantes de grande quilate) desta experiência de vinculação ao par


No conflito emocional comum a todos os Seres Humanos entre as necessidades de, por um lado, liberdade, e por outro, nos antípodas, de segurança


Na ideia de um alter-ego e de um alter lugar ambas mais excitantes, mas em simultâneo suficientemente seguras, ou seja, um cenário que se possa repetir diversas vezes, e em cada uma celebrada com a compra e oferta de um diamante


Por fim, todas as ambivalências relativamente perigosas, de equilíbrio frágil, seguramente amparadas na sublime complexidade, mas em simultâneo, também simplicidade, singularidade, resistência, ancestralidade e durabilidade de um diamante.










“El diamante de una estrella
Ha rayado el hondo cielo,
Pájaro de luz que quiere
Escapar del universo
Y huye del enorme nido
Donde estaba prisionero
Sin saber que lleva atada
Una cadena en el cuello.”






“O diamante de uma estrela
Rasgou o céu profundo
Ave de luz que quer
Escapar do universo
E é executado fora do ninho enorme
Onde foi preso um
Sem saber que ele é amarrado
Uma cadeia de caracteres no pescoço”






1ª Estrofe de “El diamante” de Federico García Lorca














Nuno Quaresma


Janeiro de 2012


(no contexto de um trabalho para a Disciplina de Tecnologias de Representação Gráfica, MDCV_ IADE_1º Semestre)



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nu, não despido
























Vejo-te nua, vejo-te nu, não despidos…

Já há 15 anos que não desenhava com modelo vivo e este olhar que não
despoja, antes vê, com ternura, com respeito, a cada traço, em cada
pincelada é um gesto religioso de reverência à Vida humana e à sua
forma.
Para quem nunca deu conta do significado desta disciplina formal, no
âmbito do desenho, a sua prática funda-se na experiência enraizada ao
longo dos tempos que o Desenho de Modelo é realmente o exercício mais
completo para compreender conceitos como: composição, enquadramento,
volumetria, claro-escuro, linha, mancha ou trama.
É o desenho na escala do humano que no fundo se transforma em
referência nuclear e centro de gravidade para a nossa relação com o
mundo que nos rodeia.
Mas o Nu, em si, não é apenas, e dentro deste contexto das Artes, uma
representação de uma pessoa sem indumentária ou ponto de partida para
uma aprendizagem meramente artística.
O Nu traz consigo outras conotações.
Na sua percepção simbólica pode, entre outras coisas, ser evocado como
a Verdade, despojada de todos os acessórios.
Na Grécia Antiga, em regiões como Minoa e Esparta, a nudez era,
seguindo esta leitura, francamente bem aceite. Nos Jogos Olímpicos, os
Atletas competiam inclusivamente nus. A palavra Ginásio, por exemplo,
significa local de nudez.
Até ao início do séc. VIII, os baptismos cristãos eram recebidos em
despojamento e nudez também, numa imersão em água, a simbolizar um
novo nascimento. O Nú como o primeiro momento existencial…
O desaparecimento desta prática acentuou mais tarde, a conotação
sexual da nudez.
Verdade, Simbolismo, Espiritualidade, Religiosidade, Erotização, Vergonha…
Nestes desenhos fazemos assim, não uma representação, mas uma
reapresentação de todas as nossas experiências em contato com o mundo
circundante, elaboradas com completo envolvimento da nossa organização
primária, dos nossos padrões de vivência, da nossa vontade
incontornável de saber e Ser mais. Que riqueza!
O Antropocentrismo e humanismo subjacentes a esta modalidade de
desenho são assim tecidos pelo desenhador e espectador em torno dos
corpos que habitamos e dos outros que sentimos habitados, sem
preconceitos sobre o que é o real ou sequer sobre a presença de cada
um nos seus domínios particulares de existência.

A mim, pessoalmente, em cada Modelo deslumbra-me a relação que
estabelecem com o espaço, com as infinitas possibilidades de
mobilidade e posicionamento dentro dele. Enternece-me cada ténue
interacção com os desenhadores, pintores, escultores, também eles,
também eu, outros corpos atarefados neste vínculo momentâneo em que,
em traços ou pinceladas, tanta coisa se torna sublime e desvela.

Se queres partilhar um pouco desta energia, em contacto com os
originais, podes encontrar uma selecção disponível para venda em:

Atenciosamente,
Nuno Quaresma
Maio de 2011






segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

15 anos a fazer Retratos


Neste ano de 2010, fim da primeira década deste milénio, completo 15 anos de actividade retratística. 
São alguns milhares de retratos – só entre 1995 e 1998 foram cerca de 5500 realizados junto à Gelataria Pai Pinguim, em Armação de Pêra – dos quais hoje já perdi a conta, mas não a memória dos rostos.

Há tanta gente que reencontro casualmente, anonimamente, entre multidões e de repente vêem-me, em flashes, reminiscências dos esboços de um primeiro olhar, dos 15/ 20 minutos de partilha, de conversa, do sorriso de empatia e simpatia.

Acho que seria efectivamente impossível empreender um ofício como este sem valorizar, sem acolher preciosamente estes momentos de encontro com o outro.

Este olhar as Pessoas à distância de um braço, ou de um palmo, num olhar que quer ver, sentir, com o pudor de tocar sem invadir.
Não imaginam as vezes que contei os sinais na pele dos modelos, em que tentei reproduzir a textura de cada poro, o brilho do ténue véu do suor, a volatilidade de uma madeixa de cabelo ao vento.
Hoje sinto-me realizado neste ofício e neste prazer, pelo que é com um gosto muito especial que declaro: o Atelier está reaberto a encomendas!

Preços especiais, novas modalidades técnicas e uma inspiração palpitante que só espera o momento, o encanto de fazer do retrato a experiência única, a memória marcada para sempre, em traços ou pinceladas, na linha do tempo.

Nuno Quaresma
Janeiro de 2010



quinta-feira, 26 de julho de 2007